11 de abril de 2012

água





«Uma língua é o lugar donde se vê o mundo (...)»

Vergílio Ferreira





(A propósito de um cartaz onde se lê o nome da minha terra com uma vogal acrescentada.)


"A-m-a-r-e-l-e-i-j-a"?! Até (me) aleija!... Esta versão escrita do vocábulo seria quase equivalente à transcrição fonética correspondente à produção oral da palavra segundo a norma estabelecida da Língua Portuguesa – de Coimbra e Lisboa. À semelhança de como, nestas cidades, também se pronuncia "i-g-r-a-i-j-a" (igreja) ou “c-o-a-l-h-o” (coelho), ou “a-l-d-a-i-a” (aldeia). No Alentejo, a variação diatópica da Língua apresenta, no seu registo oral, uma maior proximidade ao registo escrito (ortográfico) das palavras. Dizemos a textura das letras e as palavras soam mais às suas silhuetas.

Existe a norma e existem as variações linguísticas. Estas variações são condicionadas, entre outros factores, pelo lugar de onde são provenientes os falantes da Língua. Quando o “falar” alentejano é motivo de riso e objecto de comentário, de censura e de sátira, não é reconhecido como uma variação válida da Língua Portuguesa. É considerado (erradamente) inferior à norma. A sua consistência deve ser respeitada, sobretudo por ser uma das pronúncias mais fiéis à forma como se escrevem as palavras.

Há falantes indígenas que partem do Alentejo para outras regiões do país. E preocupam-se em partilhar o “falar” das gentes nativas desses lugares de acolhimento. Rapidamente se esforçam por encobrir a sua pronúncia com um véu esforçado de articulação artificial.
A interacção com falantes da língua que têm uma pronúncia diferente da nossa pode influenciar, ao longo do tempo, e (in)voluntariamente, a forma como nos expressamos oralmente. Mas não pode, nunca, varrer o som da terra que nos ensinou a falar.


A nossa origem linguística é um dos aspectos primitivos da nossa identidade. E a forma como dos lábios nos voam as palavras é a expressão da nossa verdadeira natureza. É a nossa genuinidade. É cheirarmos sempre ao chão fértil que nos fez crescer.

A minha língua é um braço da minha raiz. Falo-a. Água para não morrer.
Na solidez do solo, meu assento, habito a fortaleza da minha voz. Daqui, vejo até ao fim do mundo. Empoleirada nas palavras da minha avó.

11 de novembro de 2011

O prenúncio da morte - Profeta da sua própria vida.

(Um ano depois da criação deste espaço, até agora cheio do meu silêncio, sem o desígnio de antecipar à morte a vida.)


Assim escrevi, em tempos, a minha homenagem a um dos homens que me concebeu.
Hoje, transcrevo-a, partilho-a, porque é o Seu dia.



Depois, é a Morte.


Manuel Agostinho Ferreira Pereira, bisavô de Francisco Martins Pereira (que não chegou a conhecê-lo), trisavô de Francisco Pereira, meu longínquo avô. Natural de Amareleja, um homem baixinho, ruinzinho, mas sempre com muita vida. Era analfabeto e trabalhava no campo, como pequeno agricultor. Lavrava e carregava cereais com o carro, por conta de outrem. Era um poeta decimista.

Faltando trabalho na aldeia, foi para Rio Frio, no Ribatejo, com a sua parelha de bois, para fazer uma campanha de trabalhos no campo durante alguns meses, como, aliás, já era hábito. Teve, assim, de separar-se durante algum tempo da sua namorada. Finda a campanha, regressou à Amareleja e encontrou a namorada, que deixara na terra, preparada para casar com outro. Já com as rezes (borregos, cabras, …) mortas para o copo de água, a rapariga desistiu do casamento – «enrolou logo o estojo». Casamento desmanchado, voltou a namorá-lo, vindo mais tarde a casar-se com ele.

Manuel Agostinho dizia que só morreria no dia de São Martinho, 11 de Novembro. Todos os anos, ao findar o dia 11 do penúltimo mês, declarava: «Agora já não morro até ao ano que vem!»; «Já vivo mais um ano!». Também, todos os anos, antes do mesmo dia, deixava pago na taberna vinho para ser bebido no dia do seu funeral. Guardou algum dinheiro destinado ao seu cortejo fúnebre, que queria festivo, com foguetes e música, tocada pela Banda da Sociedade Filarmónica União Musical Amarelejense.

Conhecido e querido pelo seu grande (único) sentido de humor, são suas as expressões: «Eu cada vez vejo melhor! Dantes só via uma pessoa e agora de uma já faço duas!», «Fui metendo a fralda p’ra dentro até ao Regato, e não a dei metida; só depois vi que era a camisa da minha mulher que tinha vestida.». Contava que, duma vez, prendera os seus dois cães dentro de uma casa. Eram tão maus que se comeram um ao outro; «ficou só a pontinha do rabo de um para sinal».

De uma vez, encontrou-se com um rapaz que teria a alcunha de “Figo Inchado”, e disse-lhe, a propósito da rapariga que aquele namorava, e com quem se ia casar:

«Estava cagando no meu curral
Picando o cu nos ortigões
Quando ouvi uma moça cantar:
Adeus mocidade ingrata
Que vou a mudar de estado
Não sei o que será de mim
Nos braços do Figo Inchado.»

Tendo inventado toda a história, desencadeou um desentendimento entre os namorados, uma vez que o Figo Inchado foi pedir contas à rapariga acerca do sucedido. Conseguiu acabar-lhes com o namoro, ainda que esse não fosse o seu verdadeiro intuito (?).

Em conversa com uma neta, esta ter-lhe-á pedido um vestido novo para estrear na festa da Santa Maria . Ele, à falta de dinheiro para atender ao pedido da neta, terá “armado” os seguintes versos, ditos depois (provavelmente, pela neta) numa ocasião de um baile à desgarrada:

«Se o meu avô não morrer
Daqui até à Santa Maria
Hei-de ter se Deus quiser
Um vestido de fantasia.»

Já velho, dizia: «cada vez urino mais alto; dantes urinava p’rós pés, agora é já p’rós joelhos»; «tenho a mesma força de quando tinha vinte anos – com vinte anos, não podia com um saco de trigo, e agora também não posso».

O aformismo da Escola Salernitana (Escola de Salerno – uma das escolas médicas mais importantes dos primeiros séculos da Idade Média, fundada pelos beneditinos de Monte Cassino no século X, com o fim de ali ser restaurada a saúde) que se segue ilustra bem o espírito daquele homem que vivia do, e para o vinho:

Dat purum vinum tibi plurima commoda:
pimum confortat cerebrum, stomachum
reddit tibi laetum, fumum evacerat, et
vscera plena relascat, acuit ingenium,
visum nutrit, levat aures, corpus
pignificat, vitam facit robustam.



(O vinho genuíno concede muitos benefícios:
conforta, em primeiro lugar, o cérebro,
alenta o estômago, subtrai do corpo
os vapores nocivos, relaxa o ventre, aguça
o engenho, fortalece a vista e apura o ouvido,
reforça o corpo e dá robustez aos membros.
)


Também os provérbios de Piemonte, região da Itália (terra do vinho por excelência), sobre o vinho se aproximam muito da forma de pensar e de encarar a vida de Manuel Agostinho:

A-i-è in Diu per i ciuch.
(Existe um Deus para os bêbedos.)

Beive na cupa d´vin per fé buna ganba.
(Se queres fazer um bom caminho, bebe, primeiro, um copo de vinho.)



O Divino Espírito Santo
É um grande folião;
Amigo de muita carne,
Muito vinho e muito pão.


A partir desta quadra vinícola de Mello Moraes Filho, cantada nas Festas do Divino, o autor de O Folclore do Vinho estabelece uma ligação entre o Divino Espírito Santo e as festanças de comer e beber. Era essa a máxima pretensão de Manuel Agostinho: poder conciliar o vinho com o seu estado depois da morte, já na “Casa do divino espírito Santo”.


Cumpriu a vida alegre e optimista. Morreu velhinho, com noventa anos, vítima de uma pneumonia gripal, no dia 11 de Novembro de 1922. A sua morte – natural –, naquele que foi o (seu) derradeiro dia de São Martinho.


Escreveu um “testamento poético”, composto por três décimas, que deixou aos rapazes que o acompanhavam, os seus amigos,


TESTAMENTO DE UM VELHO MADURO

Em 1 de Maio de 1922 Do Sr. Manuel Agostinho

Rapazes em eu morrendo
Aqueles que me hande acompanhar
Vinte litros hei-de deixar
Para todos irem bebendo
Quinze litros já estão sendo
E o ano que vem se lá chegar
E o dinheiro me não faltar
Se lhe parecer que ainda é pouco
Ainda posso deixar outro
Para que haja vinho até fartar

xxx xxx

Dêm também ao coveiro
Para que beba uma gotinha
Que faça a cova lisinha
Para não me lascar o trazeiro
Se for o José Rita Rafeiro
Que ainda hoje está servindo
Talvez depois em eu indo
Seja um outro empregado
E talvez algum malcriado
Que é isso que eu estou sentindo

xxx xxx

Se fôr o Padre da Póvoa
Que vier ao meu enterro
Dêm-lhe vinho sem mêdo
Antes de chegar à cova
Que ali é que está a prova
Da bôa encomendação
Que eu como bom cristão
Quero ser bem encomendado
Para ir bem encaminhado
Para o reino da salvação



Ao qual estes responderam,


RESPOSTA

Satisfazemos o pedido
Do nosso Amigo Leal
De o irmos a acompanhar
Até chegar ao jazigo
Por este lado está servido
Agora Deus o ajude
Eu fiz por ele o que pude
Que mais não pode fazer
Mas vamos lá a beber
Vinho á sua saúde

xxx xxx

Fazemos uma parada
No meio desta travessa
Que eu não quero que se esqueça
O nosso amigo de pancada
Bebemos outra golada
Do que ele nos deixou
Que ainda não se acabou
E não queremos que sobre nada
Que há-de ficar de nomeada
O dia que ele se enterrou

xxx xxx

Fazemos outra parada
À entrada da aldeia
Como ele já não passeia
Já não precisa de nada
Já encimou a jornada
E talvez que lhe esteja dado
Quatro foguetes ao rabo
Para que toda a gente veja
Que já houve na Amareleja
Um enterro festejado



A sua morte foi notícia n’ O Jornal de Moura, com o título «Carta de Amareleja – Um enterro festejado».


[Janeiro de 2005]

24 de novembro de 2010

Ou a vida.

(...) Um rio é a infância da água. As margens, o leito, tudo a protege. Na foz é que há a aventura do mar largo. Acabou-se qualquer possível árvore genealógica, visível no anel do dedo. Acabou-se mesmo qualquer passado. É o convívio com a distância, com o incomensurável. É o anonimato. E a todo o momento há água que se lança nessa aventura. Adeus margens verdejantes, adeus pontes, adeus peixes conhecidos. Agora é o mar salgado, a aventura sem retorno, nem mesmo na maré cheia. (...) Impossível voltar atrás. Agora é a morte. Ou a vida.


"A morte da água", Ruy Belo